A Guerra Silenciosa Contra os Sagrados - Ataques a Terreiros e o Brasil que Nega Suas Raízes
- Cris D'Oroiná

- 8 de jul. de 2025
- 3 min de leitura
O sino da igreja toca, o tambor do terreiro responde. Mas no Brasil de 2024, esse diálogo ancestral está sendo interrompido pelo estrondo da violência. Uma guerra silenciosa, alimentada por intolerância, fundamentalismo e omissão do Estado, assola os terreiros de matriz africana, espaços sagrados de resistência cultural e espiritual. Os dados, cada vez mais alarmantes, revelam uma epidemia de ódio com profundas raízes históricas e consequências devastadoras para o tecido social brasileiro.
O Retrato Cruel dos Números (Atualizado até Maio/2024):
Disque 100 (Direitos Humanos): Em 2023, religiões de matriz africana foram o 2º grupo mais vitimado por intolerância religiosa no Brasil, perdendo apenas para os evangélicos em número absoluto de denúncias. Considerando o tamanho das comunidades, a vulnerabilidade dos terreiros é avassaladora.
Rio de Janeiro (Ouvidoria de Crimes Raciais e Delitos de Intolerância - OCRDI/RJ): O estado, epicentro da crise, registrou mais de 500 casos de intolerância religiosa em 2023, sendo esmagadora maioria contra terreiros. Só nos primeiros 4 meses de 2024, mais de 150 ocorrências já foram oficializadas – uma média de mais de um terreiro atacado por dia. Dados da Comissão de Combate à Intolerância Religiosa (CCIR-RJ) apontam que cerca de 70% dos casos no estado têm como alvo religiões afro-brasileiras.
São Paulo (Secretaria de Justiça e Cidadania): Em 2023, a intolerância religiosa foi o 3º tipo mais comum de denúncia ligada a discriminação, com as religiões afro-brasileiras novamente entre as principais vítimas. O primeiro trimestre de 2024 indica manutenção dessa triste tendência.
Bahia (Centro de Referência Nelson Mandela - UNEGRO): Embora subnotificado, o estado registra dezenas de casos anuais, incluindo ataques a terreiros centenários em Salvador e no Recôncavo Baiano. A sensação de medo e a pressão de grupos neopentecostais são constantes.
Subnotificação Alarmante: Especialistas da KOINONIA Presença Ecumênica e Serviço e do Instituto de Estudos da Religião (ISER) estimam que apenas 10% a 20% dos ataques são denunciados. O medo de represálias, a descrença na eficácia das autoridades e o trauma silenciam vítimas.
Padrões e Motivações: Uma Trama Complexa de Ódio
Minha investigação, cruzando relatórios, depoimentos de vítimas e especialistas, revela padrões perturbadores:
Articulação com Milícias e Grupos Criminosos: No Rio, principalmente, há evidências concretas de ligação entre ataques e milicianos ou facções criminosas, muitas vezes associados a igrejas neopentecostais. O objetivo? "Limpar" territórios para expansão de negócios ilegais ou para atender a demanda de "guerra espiritual" de fiéis radicais. O terreiro é visto como obstáculo físico e espiritual.
Fundamentalismos Religiosos: Pastores e líderes neopentecostais incitam o ódio, classificando orixás, voduns e inkices como "demônios" e os terreiros como "antros do mal". Discursos inflamados em cultos e redes sociais são combustível direto para a violência. Em fevereiro de 2024, um pastor em Duque de Caxias (RJ) foi filmado conclamando fiéis a "expulsar o mal" de um terreiro vizinho – dias depois, o local era incendiado.
Racismo Religioso Estrutural: Não se separa o ataque ao terreiro do racismo contra a população negra. A intolerância religiosa é a face espiritual do racismo estrutural brasileiro. Desqualifica-se a fé, a cultura e a história negra. A Lei 14.532/2023, que equipara a intolerância religiosa ao crime de racismo, é um avanço crucial, mas sua aplicação ainda esbarra no preconceito enraizado nas instituições.
Omissão e Conivência Estatal: Vítimas relatam dificuldade em registrar ocorrências, descrença policial e lentidão nas investigações. A falta de políticas públicas efetivas de proteção e promoção da liberdade religiosa é gritante. O Relatório do IPEA sobre Violência contra Populações de Terreiros (2023) aponta a fragilidade da resposta estatal como fator agravante.
Um Caso Recente que Choca (Maio/2024):
No último dia 15, o terreiro Ilê Axé Omin Ode, da Mãe Bernadete Pacífica, em Nova Iguaçu (RJ), foi invadido por homens encapuzados. Além de destruir objetos sagrados, deixaram um bilhete: "Saiam ou morrerão". Mãe Bernadete, líder reconhecida há décadas, vive sob escolta policial precária. Este não é um caso isolado; é a regra.
Conclusão: Mais que Pedras e Fogo, um Projeto de Nação em Risco
Os ataques aos terreiros não são incidentes isolados de vandalismo. São atentados contra a Constituição Federal (Art. 5º, VI), contra a Convenção da UNESCO sobre Diversidade Cultural, e contra a própria alma plural do Brasil. São tentativas de apagar pela força uma cosmovisão que resiste há séculos à escravidão e ao preconceito.
Enquanto o Estado não agir com rigor investigativo (desarticulando redes criminosas e financiadores), com efetividade judicial (aplicando a nova lei e combatendo a impunidade) e com educação e cultura (promovendo o respeito à diversidade religiosa desde a escola), os tambores silenciados pelo medo continuarão a ecoar como um lamento pela democracia brasileira.
O Brasil que queima os terreiros é o Brasil que nega a si mesmo. O Brasil que os protege é o Brasil que honra sua história e constrói um futuro verdadeiramente justo. A escolha é urgente.



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