Natureza x Oferendas - A dura realidade moralista
- Lucas D'Oxalá

- há 7 dias
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Atualmente, vivemos em um período em que o acesso à informação é rápido, simples e de fácil alcance. Conhecimentos que antes eram passados de geração em geração de forma oral hoje são compartilhados por meio de sites e blogs. Rituais que antes eram fechados agora são abertos ou semiabertos. Até mesmo a forma de cultuar os Orixás mudou: hoje, você consegue pesquisar sobre entregas, oferendas, comidas de santo e muito mais. Entretanto, apesar da facilidade de acesso à informação, percebemos que alguns costumes não mudaram — ou pioraram.
Vemos, com frequência, entregas em encruzilhadas para Exu ou Pombagira, para Orixás ou até mesmo despachos para descarrego. Porém, apesar de as pessoas cultuarem e se dizerem entender o que aquela entidade, Orixá ou linha de trabalho significa, elas não carregam consigo seus verdadeiros ensinamentos. São pessoas que têm enorme devoção, fé inabalável, com vários estudos, cursos e terreiros em seu "currículo", pais e mães de santo como melhores amigos, e até cultos e rituais em sua própria casa. Mas, no fundo, acabam sendo mais moralistas do que uma pessoa preconceituosa e deixam de pensar no básico. Afinal, onde quero chegar com tudo isso?
Em 2023, cada brasileiro jogou fora cerca de 382 quilos de materiais do universo total de descartes feitos no país. Alimentos estragados, plásticos, aparelhos eletrônicos com componentes químicos, são alguns dos itens jogados no meio ambiente sem um destino adequado. - Agência Brasil
O país gera cerca de 80 milhões de toneladas de resíduos sólidos por ano, dos quais apenas 10% são reciclados. - Ribeiro Figueiredo, K. (2023). DESCARTE DE LIXO INADEQUADO DA POPULAÇÃO BRASILEIRA.
A destinação incorreta de resíduos sólidos no Brasil impacta diretamente a saúde de 77,65 milhões de brasileiros todos os anos - Notícias R7
Podemos notar que o descarte inadequado de lixo prejudica diretamente nossa saúde, mas, além disso, gera impactos irreversíveis ou de difícil reparação ao meio ambiente. Uma entrega feita com plásticos, alguidares de barro, garrafas de bebidas, velas, comidas, cortes (galo, boi e outros), e até mesmo as guias despachadas, estão inseridas nesses impactos ambientais. Não é porque "a entidade mandou" que você deve fazer de qualquer jeito, não é porque você sempre fez assim que deve permanecer no erro e não é porque você bate cabeça para o caboclo que você o respeita de verdade — afinal, eles vieram para nos reconectar à natureza, não é mesmo?
Trago esta postagem como um apelo para que vocês pensem de forma crítica, moldem seus pensamentos em ideias sustentáveis e compreendam verdadeiramente o significado da Umbanda, que não se define apenas no amor ao próximo. Entregas, oferendas e despachos podem ser feitos de forma sustentável, causando o menor impacto possível à natureza. Troquem os plásticos por materiais perecíveis. Usem folhas de acelga ou de bananeira para acomodar as comidas — e cuidado: nem toda comida deve ser deixada na natureza. Caso queira deixar a oferenda, opte por frutas, legumes e verduras que os animais possam consumir, evitando comidas preparadas e temperadas. Se precisar despachar algo, descarte em uma lixeira, e não no chão ou ao pé da árvore. Se for acender uma vela, permaneça no local até que ela termine ou retorne para recolher os resíduos e descartá-los adequadamente. E o mais importante: saiba que não é só porque está em uma folha de acelga ou dentro de um alguidar de barro que isso não prejudica a natureza.
Ao final de tudo isso, peço que vocês enxerguem seus erros e aprendam com eles. Enxerguem a natureza não apenas como um local para despachos, entregas ou oferendas, mas como um ser vivo que deve ser respeitado, assim como vocês dizem respeitar o caboclo. Acima de tudo, pensem de forma crítica e compreendam os impactos que podem causar ao fazer uma "simples entrega".
Axé.




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