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O Terreiro na Avenida: Reafricanização, Epistemicídio e a Demonização do Carnaval como Projeto de Poder



Inspirado em Carlinhos Brown - Salvador 2026
Inspirado em Carlinhos Brown - Salvador 2026

O carnaval brasileiro , lido como o ápice do turismo e da "brasilidade", esconde entre suas plumas, folia e muita purpurina sua raíz profundamente fincada nas religiões de matriz africana. Muito além da folia, o carnaval se constitui como uma espécie de África em cortejo, um espaço reocupável, onde o sagrado e o profano se completam de forma lúdica e política do corpo negro. Entretanto, essa mesma raíz que sustenta a festa é alvo histórico de um processo de demonização sistemática, fruto inteiramente de um racismo estrutural que quando não consegue extinguir a cultura e o corpo negro, criminaliza sua existência através do epistemicídio (aniquilamento de saber e memórias da diáspora africana).

A origem do carnaval moderno especialmente na Bahia é indissociável da estrutura dos terreiros, Risério aponta o carnaval como chave da compreensão da resistência cultura afro-brasileira. O bloco Ilê Aiyê não surge apenas como proposta estética, mas como articulação político-comunitária enraizada no Curuzu. Sua trajetória é indissociável da atuação da Iyalorixá Mãe Hilda, cuja condução ritual antecede a saída do bloco e revela que o desfile, longe de mero espetáculo, opera como extensão litúrgica do terreiro na esfera pública.

O Ijexá tocado pelos atabaques do bloco Filhos de Gandhi, descende diretamente do afoxé dos terreiros de candomblé na Bahia onde cumprem a missão de conectar o toque a energia do orixá de modo que cheguem á terra abençoando-os.

A demonização do Carnaval estrutura-se desde o século XIX, quando o racismo científico de Nina Rodrigues e Cesare Lombroso classificou práticas afro-brasileiras como sinais de atraso e periculosidade. O Código Penal Brasileiro de 1890 institucionalizou essa lógica ao criminalizar rituais e práticas de cura negra, deslocando manifestações culturais para o campo policial.


Essa matriz interpretativa persistiu ao longo do tempo: a elite brasileira tratou expressões afro-diaspóricas como resquícios “primitivos” incompatíveis com a modernidade, reforçando o racismo religioso que reduz sistemas complexos de saber à caricatura pejorativa da “macumba”.

Nas últimas décadas, a expansão de igrejas neopentecostais, como a Igreja Universal do Reino de Deus, reconfigurou a demonização das religiões de matriz africana por meio da chamada “teologia da guerra espiritual”, que associa Exu ao diabo cristão. Essa equivalência sustenta ataques a terreiros e a símbolos públicos sob a justificativa de purificação religiosa.


Trata-se de um processo de epistemicídio, conceito formulado por Boaventura de Sousa Santos, que designa o apagamento sistemático de saberes. Ao desqualificar práticas como o samba e a capoeira, setores religiosos operam a dissociação entre cultura brasileira e matriz africana, convertendo o racismo em discurso teológico legitimado. A demonização da festa e das religiões que a alimentam é uma ferramenta do racismo estrutural para invisibilizar a contribuição civilizatória africana no Brasil.

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