Crônica: "UFC astral ?"
- Ias d' Iansã

- 31 de out. de 2025
- 2 min de leitura
Como já avisei na primeira crônica, as histórias não seguem ordem — a vida espiritual é uma colcha de retalhos de absurdos. Hoje, vamos falar de Erês.
Aqueles seres encantados, cheios de luz, risos e… confusão, muita confusão.
Minha Erê é uma criança de Iansã. Apaixonada por coelhos, borboletas, gatos e bolinhas de sabão. Já o Erê do meu companheiro (lembrando: ele é ateu, mas o plano espiritual parece ignorar esse detalhe) é de Ogum. Dois temperamentos opostos. Dois universos. E, claro, duas crianças que, vez ou outra, se desentendem.
Pois bem. Setembro chegou e, com ele, as visitas dos Erês de amigos — informação importante, anota aí. Minha casa vira uma espécie de creche do astral.
Certa madrugada, levantei para ir ao banheiro e, ao passar pela sala, escuto o maior quebra-pau infantil. Não era briga de gato e rato. Era briga de Erê.
Chego no corredor e me deparo com a cena:
O Erê de Iemanjá de uma amiga, observando tudo com a sabedoria de quem já previa o caos, me diz: “Eu ia ajudar, tia, mas eu não vou não” — e some, deixando só aquele cheirinho gostoso de maresia.
O Erê de Xangô, que também trabalha comigo, apenas observa, chupando uma chupeta, impassível.
E no centro do ringue, ou melhor da sala:
Minha Erê, de cara no chão, e o Erê de Ogum puxando suas maria-chiquinhas enquanto gritava:
— “Para de correr atrás dos gatos! Eles não gostam!”
E ela, berrando de volta:
— “Eu tô brincando de pega-pega!”
Nunca imaginei presenciar um UFC espiritual.
No desespero, gritei pela criança da minha mãe de santo — que não perde tempo. Chegou já puxando orelha, separando a briga e levando os dois para conversar com a preta velha regente da casa.
E assim, paz (ou algo próximo) foi restaurada.
Bobo é quem acha que Erê é só alegria, cara lambuzada de chantilly e festa com pirulito. Pelo visto, também saem no soco — e, no fim, ainda levam bronca da vó no astral.
Mas no fundo, no fundo… até nessas brigas há um fio de doçura. Ou seria cansaço?
Difícil saber. O que importa é que, no mundo dos Erês, até a confusão vem com pureza — e um toque de drama.


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