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Crônica: "UFC astral ?"

Como já avisei na primeira crônica, as histórias não seguem ordem — a vida espiritual é uma colcha de retalhos de absurdos. Hoje, vamos falar de Erês.


Aqueles seres encantados, cheios de luz, risos e… confusão, muita confusão.


Minha Erê é uma criança de Iansã. Apaixonada por coelhos, borboletas, gatos e bolinhas de sabão. Já o Erê do meu companheiro (lembrando: ele é ateu, mas o plano espiritual parece ignorar esse detalhe) é de Ogum. Dois temperamentos opostos. Dois universos. E, claro, duas crianças que, vez ou outra, se desentendem.


Pois bem. Setembro chegou e, com ele, as visitas dos Erês de amigos — informação importante, anota aí. Minha casa vira uma espécie de creche do astral.


Certa madrugada, levantei para ir ao banheiro e, ao passar pela sala, escuto o maior quebra-pau infantil. Não era briga de gato e rato. Era briga de Erê.


Chego no corredor e me deparo com a cena:


O Erê de Iemanjá de uma amiga, observando tudo com a sabedoria de quem já previa o caos, me diz: “Eu ia ajudar, tia, mas eu não vou não” — e some, deixando só aquele cheirinho gostoso de maresia.


O Erê de Xangô, que também trabalha comigo, apenas observa, chupando uma chupeta, impassível.


E no centro do ringue, ou melhor da sala:


Minha Erê, de cara no chão, e o Erê de Ogum puxando suas maria-chiquinhas enquanto gritava:


— “Para de correr atrás dos gatos! Eles não gostam!”

E ela, berrando de volta:

— “Eu tô brincando de pega-pega!”


Nunca imaginei presenciar um UFC espiritual.


No desespero, gritei pela criança da minha mãe de santo — que não perde tempo. Chegou já puxando orelha, separando a briga e levando os dois para conversar com a preta velha regente da casa.


E assim, paz (ou algo próximo) foi restaurada.


Bobo é quem acha que Erê é só alegria, cara lambuzada de chantilly e festa com pirulito. Pelo visto, também saem no soco — e, no fim, ainda levam bronca da vó no astral.


Mas no fundo, no fundo… até nessas brigas há um fio de doçura. Ou seria cansaço?


Difícil saber. O que importa é que, no mundo dos Erês, até a confusão vem com pureza — e um toque de drama.

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