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Crônica: Visitas.

As histórias não serão contadas em ordem cronológica. Quando se é médium, o inesperado vira rotina — e só quem vive isso entende. Você vira, sem aviso prévio, um tipo de "central de atendimento espiritual" para entidades que resolvem bater à sua porta (ou atravessar sua parede) porque alguém próximo precisa de um recado. E não adianta explicar que você não tem horário comercial: elas chegam quando querem.


Meu companheiro, diga-se de passagem, não segue religião alguma. Mas os guardiões dele parecem ter combinado de ignorar esse detalhe. E assim, numa tarde qualquer, eu estava em casa, mergulhada na paz doméstica — ou melhor, na ilusão dela — quando senti *aquela* presença.


Era o cangaceiro dele.


Não um espírito qualquer, não um mentor sorridente: um cangaceiro de chapéu de couro, roupa surrada e — o detalhe mais inquietante — um tapa-olho que parecia carregar séculos de histórias não contadas. Ele ficou parado, me encarando com uma expressão que oscilava entre o severo e o profundamente irritado. Eu, por minha vez, media cada palavra como quem pisa em ovos numa mina terrestre.


— Boa tarde... — tentei.

Silêncio.


— Precisa que eu leve algum recado pra ele?

Nada. Só o olhar (ou melhor, o olho) fixo, impenetrável.


Já estava mentalmente redigindo um pedido de demissão do meu próprio dom quando, na última tentativa, soltei:


— O senhor quer dizer alguma coisa?


Foi aí que o cangaceiro, rompendo o mutismo com a delicadeza de um facão, respondeu:


— Levei uma facada no olho.


E antes que eu pudesse processar a frase — ou perguntar se era uma metáfora, uma ameaça ou um desabafo histórico —, ele simplesmente evaporou. Sumiu no ar, deixando apenas o eco daquela declaração enigmática e a certeza de que, no mundo espiritual, até os silêncios vêm com plot twist.


Pois é. Médium não tem paz — só histórias pra contar. E olha que essa nem foi a mais estranha...


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